Ele era apenas uma criança quando emudeceu. Pela idade, o esperado era que brincasse com os outros, tagarelasse muito, perguntasse o por quê das coisas, mas as contingências da vida o calaram.
Não, não falarei de contingências e sim de golpes... Todos os laços afetivos que havia desenvolvido até ali foram ceifados de sua vida, um a um, tirando-lhe o sentido da palavra. Para que falar, quando não há quem escute? O que perguntar, se não há quem responda?
A palavra liberta. Da minha parte, escrevo para tentar organizar algo, de mim ou do mundo como a mim se apresenta, sejam as ideias que pululam, o caos que atravessa, a dor que representam essas histórias e/ou a alegria de saber que elas possam encontrar caminhos além do sofrimento. A palavra, no entanto, precisa de sentido para existir. Precisa, aliás, ser ela capaz de produzir algum sentido.
O nosso menino conviveu muito cedo com diversas violências e o acolhimento institucional tornou-se a única saída naquele momento para ele e suas irmãs. O sistema, no entanto, prontamente o separou da mais velha e ele certamente não pôde entender essa primeira perda. Naquele ponto ainda tinha outra irmã e visitas pontuais da mãe que tentava resgatar sua "maternidade". Em pouco tempo, alguém decide que isso não seria possível e, sem qualquer explicação, é a mãe que desaparece da sua vida. Resta-lhe ainda uma irmã. Esta, também criança, torna-se a sua responsável: cuida, protege, garante a estrutura familiar mínima. Mas ela também parte sem aviso prévio ou posterior que o valha.
Então ele calou. Problema instalado, a urgência para resolver: "Liguem pras irmãs!". Elas atendiam o telefone, falavam, choravam do outro lado da linha enquanto ele permanecia mudo e aparentemente impassível, esperando autorização para voltar a brincar - autisticamente - com seus brinquedos. Atendimentos, estratégias lúdicas, desenhos, etc., nada funcionava.
Foi então que se abriram as casas. Nelas, embora ainda em ambiente institucional, deveria haver algo de um lar: uma mãe, um sentimento de família, uma re-união daqueles que sofreram as faltas de sentido de um sistema tão perverso. Ele finalmente reencontrou uma das irmãs e encontrou um espaço que se tornaria seu. Encontrou um guarda-roupa, gavetas e prateleiras. Encontrou espaços pessoais e convivenciais. Encontrou uma irmã de sangue e irmãos de coração. Encontrou uma mãe cuidadosa que lhe dava um lugar e uma função na casa e na vida e enfim, encontrou até mesmo uma profissional da psicologia designada apenas para ele (ao contrário daquela profissional do serviço de saúde que atendia a todas as crianças, como ocorria antes).
Por muitos dias, ele ainda nada dizia. Nos primeiros, arrastava um saco com seus pertences pra lá e pra cá, como se explorasse o espaço, como quem verifica e decide se pode finalmente desligar o estado de alerta, de desconfiança e de prevenção da dor que, no entanto, já está há muito instalada. Aos poucos, encontra espaço para seus pertences, encontra também lugar para o seu ser naquela rotina, e eis que um dia uma palavra surge... primeiro como um som quase ininteligível, depois como palavras reunidas até se tornar uma enxurrada de frases e de ideias, como se ele precisasse fazer escoar tudo que ficara guardado por tanto tempo.
É engraçado como costumamos associar a palavra com significados e separá-la do afeto, compreendendo-o como aquilo que não pode ser expressado semanticamente. Pois foi naquele momento mesmo, no momento em que ele voltou a encontrar as palavras, que ele parece ter se aberto novamente para o amor, para novas possibilidades de fazer laços e de resgatar aqueles que já pareciam rompidos. Não é possível dizer o que veio antes, se a abertura para o afeto ou a possibilidade de falar, mas é certo dizer que havia novo sentido ali, era então possível sentir e ser.
O amor e a palavra precisam de alguma segurança, ou melhor dizendo, de confiança. Aquele que sente e que fala precisa acreditar que nada será usado contra si, precisa sentir a convicção de que a entrega que faz, embora sem garantias de reciprocidade, possa ser recebida com a mesma autenticidade com que é lançada. Os riscos do "ser sujeito", inevitáveis que são, estão sempre lá, é certo, mas tornam-se enfrentáveis se se acredita haver onde pousar, se há consistência e pertinência.
terça-feira, 17 de julho de 2018
sábado, 31 de março de 2018
O pequeno grande Hulk
-“Tia,
mas não é justo! Não é justo, não é justo, não é justo!”
(Ela
sabia que não era, mas conhecia elementos que ele desconhecia e precisava
dizer/fazer algo que produzisse sentido para ele.)
-
“Você sabe me dizer qual é a maior fraqueza do Hulk?”
(Ele
entendeu que estava sendo associado a um de seus personagens favoritos, e
pareceu gostar da comparação, a princípio...)
Naqueles tempos havia um rapazinho de
grande inteligência, esta que, no entanto, não o salvava da ignorância de não saber
por que estava ali e não onde queria, e não onde tinha certeza de que podia
estar. Desde muito novo crescia naquele lugar e neste momento beirava sua
pré-adolescência, como gostamos de nomear. As crescentes decepções se somavam à
sua história de vida que não lhe passava irrefletida.
As promessas eram muitas. Elas não eram
feitas por pessoas, já que estas não queriam se comprometer, mas partiam de sua
observação sistemática dos processos pelos quais passava durante anos e das
decisões tomadas nesse período: a alienação total da família era então seguida
por visitas recebidas por esta, pontuais, periódicas e/ou frequentes e que
finalmente se tornavam idas também pontuais, periódicas e/ou frequentes à casa
daquela. Quando tudo parecia correr bem, quando tudo parecia finalmente se
resolver para que ele enfim retornasse ao seio familiar, algo acontecia. Nas
primeiras vezes, ele, confuso, perguntava o que havia ocorrido. Com o tempo ele
sabia melhor do que nós quando tudo recomeçaria, e aquela história se tornaria
um looping que parecia infinito...
Tentava, então, antecipar-se ao resultado
e salvar aquela nova tentativa. Numa dessas ocasiões, tentou minorar a
gravidade do problema que ainda nem era conhecido e quando percebeu seu
insucesso, logo acusou: "Como é que a senhora, que terminou a primeira
série, a segunda série e todas as séries que existem, não consegue resolver
isso que eu, que sou uma criança, sei como resolver?". Sua frustração era
gritante e sua inteligência impotente era o que mais doía, não sei ao certo se
nele ou se em nós todos.
Freud, lá em 1920, observou que seu neto,
sendo deixado em seu berço enquanto os pais iam cuidar de seus afazeres,
inventara uma brincadeira: dizia ele "fort" e "da" (que
significa lá e aqui) enquanto jogava um carretel preso a uma linha para longe
do seu campo de visão e logo o trazia de volta para si. Interpretou o pai da
psicanálise que aquela brincadeira era a forma que o garoto tinha de reproduzir
a situação angustiante da perda em que os pais somem de seu campo de
visão e voltam à sua revelia, tornando-se ele mesmo o regulador dos momentos de sumiço e de retorno do carretel.
O nosso personagem também tentava
controlar sua angústia, embora de outra forma. Raivas se acumulavam a cada
frustração: raiva da mãe que não conseguia quebrar aquele ciclo interminável,
raiva da juíza que não decidia logo para que ele saísse dali, raiva daquelas
que cuidavam dele e que não conseguiam resolver seu problema, mesmo tendo
estudado tanto e passado por "todas as séries que existem". Essa
raiva tornava-se cada vez menos contida e a linguagem da violência, aprendida
na pele desde cedo e permanecido na memória - especialmente motora - o
fazia agir, talvez à sua revelia e à força de algo nele que ele também não controlava.
Tentávamos dar-lhe a via catártica do
desabafo. Chorar e gritar que nada daquilo era justo era permitido, mas não era
suficiente. Jamais seria.
A tarefa clínica de escuta e acolhimento
precisa ir além da catarse, ainda que não dê a solução pragmática esperada. No
ato analítico, aliás, nunca se dá a resposta desejada; esta só será
disponibilizada por outras vias, a partir de outras funções. Tal tarefa exige
técnica, mas parece exigir algo da ordem de uma sensibilidade algo intuitiva
que deve reunir a técnica a uma ética de tudo acolher, à experiência do
que se vive, do que se experimenta no mundo e, enfim, de tudo poder ser usado
como instrumento e ferramenta de trabalho.
Agora ele se antecipava ainda mais: novamente
acontecia uma daquelas coisas que dariam reset no jogo da sua
vida, e então ele tinha um "ataque de fúria" e quebrava tudo à sua
frente, na escola, na casa, na sala do médico ou da psicóloga. Talvez ansiasse
pelo castigo de não ser autorizado a ir à casa que, mais uma vez, não seria
ainda seu lar. Quiçá só quisesse dar vazão à sua raiva por um resultado que embora
ainda não houvesse chegado, era líquido e certo.
Era evidente que tais "ataques"
diziam algo sobre sua dor e frustração, que ele afinal queria assumir o
controle sobre tudo aquilo que lhe escapava, mas os efeitos da violência são
sempre nefastos, especialmente para uma "criança de abrigo". Cada ato
enfurecido produzia mais estigma sobre si, maior rejeição institucional e maior
sentimento de falta de controle sobre os caminhos da sua vida. Ele, entre o
orgulho de jamais se arrepender do que fizera e o medo da perda do amor
combinado com um desejo de redenção, ia ali tentar justificar o ato e avaliar
suas possibilidades de perdão.
Foi então que aquela pergunta lhe fora
feita, a única que uma dada “intuição” clínica seria capaz de fazer diante
daquela conjuntura. Sem soluções a dar e sem castigos a impor, questiona-se qual
seria a maior fraqueza do Hulk. Ele, pensativo, responde em negativa, já que
aquele herói, forte e destruidor, só guardaria para si as características da
potência.
- "É que ele só vira o Hulk quando
tem muita raiva e então não é mais o Bruce Banner que controla os próprios atos,
mas é o Hulk que toma conta dele. Quando isso acontece, além de atingir o
inimigo, ele acaba destruindo tudo em volta, podendo até machucar aqueles a quem
ama e a si mesmo..."
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Como se atreve?
Um novo bebê chega à grande casa de crianças. Seu nome, escolhido às pressas e à revelia daquela que o pariu, vem junto do nome dela, mais familiar do que se gostaria. Ser mãe, dizem uns, é uma dádiva. Já outros dizem que é um talento. Fala-se até de perfil, como se fosse uma vaga de emprego - o mais importante dentre os que há na vida, dizem ainda.
Ela, usuária de drogas, certamente não tinha o perfil, e aqui essas pessoas estão erradas por princípio, até que se prove o contrário, se for possível fazê-lo. A criança, mal nascida, chega já com uma história obscura que denunciava aquela que se propunha a tornar-se mãe sem poder sê-lo.
"A genitora, viciada em crack, queria vender o filho ainda no ventre para comprar drogas". A futura mãe, compradora do futuro filho, até então aparentemente não questionava tal imoralidade. A futura mãe acompanhava todo o pré-natal e pagava o que tivesse que ser pago para finalmente ter seu filho. Ela tinha certeza de que tinha o talento e que merecia essa dádiva que não cabia à outra.
A criança nasce e a genitora declara ser mãe, desfazendo qualquer acordo. Não se sabe se pelo cheiro, se pelo toque, se pelo olhar ou se sempre fora uma estratégia dela que queria sair da rua, que queria abrigo e cuidado para se preparar para o novo momento da sua vida. Bem sabia ela que não tinha o tal perfil, talvez, mas fora denunciada em seu intuito de vender seu bebê: drogada, viciada, egoísta... como ela se atrevia em desejar ser mãe, esta figura que é toda entrega, cuidado e amor pro outro?
A genitora, que agora (ou sempre?) queria ser mãe, vociferava, ameaçava, falava na linguagem da rua, sua velha conhecida. Aquele linguajar e aquele tom, no entanto, só conseguiam condenar seu projeto de se mostrar potencialmente mãe: era o nono filho que lhe roubavam, gritava ela. Era o nono bebê que ela tentava vender, dizia a vizinhança da quase futura mãe.
Sua luta era vã. Não seria ainda mãe. Não naquele momento, não daquela forma. Ela prometera, no entanto, que iria parir quantos bebês fossem necessários até que pelo menos um pudesse ser seu e que ela finalmente pudesse tornar-se mãe e tudo o mais que aquilo pudesse significar.
Ela, usuária de drogas, certamente não tinha o perfil, e aqui essas pessoas estão erradas por princípio, até que se prove o contrário, se for possível fazê-lo. A criança, mal nascida, chega já com uma história obscura que denunciava aquela que se propunha a tornar-se mãe sem poder sê-lo.
"A genitora, viciada em crack, queria vender o filho ainda no ventre para comprar drogas". A futura mãe, compradora do futuro filho, até então aparentemente não questionava tal imoralidade. A futura mãe acompanhava todo o pré-natal e pagava o que tivesse que ser pago para finalmente ter seu filho. Ela tinha certeza de que tinha o talento e que merecia essa dádiva que não cabia à outra.
A criança nasce e a genitora declara ser mãe, desfazendo qualquer acordo. Não se sabe se pelo cheiro, se pelo toque, se pelo olhar ou se sempre fora uma estratégia dela que queria sair da rua, que queria abrigo e cuidado para se preparar para o novo momento da sua vida. Bem sabia ela que não tinha o tal perfil, talvez, mas fora denunciada em seu intuito de vender seu bebê: drogada, viciada, egoísta... como ela se atrevia em desejar ser mãe, esta figura que é toda entrega, cuidado e amor pro outro?
A genitora, que agora (ou sempre?) queria ser mãe, vociferava, ameaçava, falava na linguagem da rua, sua velha conhecida. Aquele linguajar e aquele tom, no entanto, só conseguiam condenar seu projeto de se mostrar potencialmente mãe: era o nono filho que lhe roubavam, gritava ela. Era o nono bebê que ela tentava vender, dizia a vizinhança da quase futura mãe.
Sua luta era vã. Não seria ainda mãe. Não naquele momento, não daquela forma. Ela prometera, no entanto, que iria parir quantos bebês fossem necessários até que pelo menos um pudesse ser seu e que ela finalmente pudesse tornar-se mãe e tudo o mais que aquilo pudesse significar.
terça-feira, 5 de setembro de 2017
Além dos limites do sucesso
Um "menor infrator" foi assassinado.
Um adolescente envolvido com roubo e com disputas entre gangues foi morto a tiros pela gangue inimiga.
O adolescente de 16 anos, cujos pais estavam presos, foi alvejado no meio da sua comunidade, pelo grupo com quem nutria inimizades.
Aquele rapaz que sonhava alto, carinhoso que só ele, e que planejava deixar aquela vida tão logo conseguisse liquidar suas dívidas, foi morto numa tarde de agosto.
Havia dívidas em dinheiro, dívidas em drogas, dívidas em vidas e desafetos.
Era aquele menino que chegava todo dia com um sorriso largo, sempre otimista, acreditando que haveria um amanhã diferente.
Era aquele que sempre alertava os novatos para que tivessem cuidado, porque aquela moça ali ia entrar na cabeça deles; era aquele, no entanto, que tinha conversa pra todo dia, no fundo desejando que a moça entrasse na sua cabeça e ajudasse a remontar as peças da sua vida.
Foi aquele jovem, envolvido com o crime, que morreu prematuramenteporque quis ou mereceu (?), porque sua esperança não conseguiu superar a realidade que lhe batia a porta: a realidade travestida de vingança, a realidade vestida dela mesma.
Foi esse adolescente que mostrou a face dura da morte: morte da esperança, morte da vontade profundamente verdadeira porém impotente, uma morte prematura da vitalidade e da mudança.
Foi ele também que mostrou a vida: a vida da alegria, a vida de saber que, não tendo ninguém, era possível não estar só.
Pois esse menino fez uma demanda desesperada, aparentemente tão despropositada, que poderia não ter sido atendida. Perguntou, meio assustado, quase pueril, se ninguém ali podia acompanhá-lo a um depoimento na delegacia de proteção à criança e ao adolescente:
Na delegacia não era um depoimento.
Não havia crime - pelo menos não crime recente.
Na delegacia de proteção havia vingança e violência institucional. O que haveria, aliás, era "pau". Não o houve porque ele estava acompanhado.
A moça de crachá, sua acompanhante, pequena e ingênua, esperava a hora dele depor e sequer sentiu o adensamento progressivo dos humores diante da impossibilidade da violência física que sua presença produzia.
O menino lhe sussurrava aos ouvidos: "se a senhora não estivesse aqui, eles iam me pegar... aquele agente ali não gosta de mim e tinha prometido que ia me pegar pra me bater..."
Querendo ainda acreditar na motivação institucional daquele chamado, os dois esperavam quase pacientemente - ela mais, ele menos. O delegado (ou era o agente), menos ainda.
Esta figura de autoridade - inominável, deveras - finalmente fez seu discurso: olhou pra moça com o crachá, tão pequena e nada ameaçadora e começou a vociferar jargões daqueles vomitados na mídia: "uma menina tão bonita, cuidando de marginal", "direitos humanos deviam ser pra gente direita, não pra esse vagabundo", etc.
O menino, tão doce e carinhoso com a moça que tentava cuidar dele, quis também cuidar dela, e ameaçava explodir.
Ela pegou então na sua mão e o lembrou com um olhar do que haviam conversado, sobre o cuidado com os atos, sobre decidir como agir e sobre não reagir.
Ele respira fundo e se contém.
O agente continuava a abusar da sua autoridade.
Mais discurso de ódio e a pergunta, direcionada a ela: "como você consegue lidar com esses animais?"
O rapaz não suporta: "aqui a gente é tratado como animal e vira bicho; com elas, a gente é tratado com respeito e lá a gente vira gente".
Ela - que também tem o direito de se orgulhar - sorriu triunfante.
O agente da lei às avessas não podia suportar aquela resposta e assume seu lugar animalesco, confessando o projeto frustrado de violência.
Em toda essa história e antes de ir, ela também falou. Depois de voltar, ela ainda denunciou.
Mas isso não foi o mais importante. Dali por diante, havia finalmente alguém por ele, e isso alimentava a chama da sua esperança.
O final não é feliz, já sabemos: aquele adolescente, que não estava mais só no mundo e acreditava num futuro diferente, não conseguiu deixar sua vida no passado e foi atropelado por ela.
A moça sabe que não está ali para salvar vidas, já que estas protagonizam sua própria história.
Aquela moça, de crachá e registro profissional, chorou a morte do rapaz e precisou fazer luto.
A mulher, psicóloga, queria que tivesse sido diferente, mas aprendeu muito com o menino infrator.
Aprendeu com ele a acreditar e ensinou um pouco de volta, fazendo-o se sentir menos órfão de fé.
Apesar disso tudo, ele foi assassinado.
... mas ela ainda insiste em acreditar que esse foi um caso de sucesso.
Um adolescente envolvido com roubo e com disputas entre gangues foi morto a tiros pela gangue inimiga.
O adolescente de 16 anos, cujos pais estavam presos, foi alvejado no meio da sua comunidade, pelo grupo com quem nutria inimizades.
Aquele rapaz que sonhava alto, carinhoso que só ele, e que planejava deixar aquela vida tão logo conseguisse liquidar suas dívidas, foi morto numa tarde de agosto.
Havia dívidas em dinheiro, dívidas em drogas, dívidas em vidas e desafetos.
Era aquele menino que chegava todo dia com um sorriso largo, sempre otimista, acreditando que haveria um amanhã diferente.
Era aquele que sempre alertava os novatos para que tivessem cuidado, porque aquela moça ali ia entrar na cabeça deles; era aquele, no entanto, que tinha conversa pra todo dia, no fundo desejando que a moça entrasse na sua cabeça e ajudasse a remontar as peças da sua vida.
Foi aquele jovem, envolvido com o crime, que morreu prematuramente
Foi esse adolescente que mostrou a face dura da morte: morte da esperança, morte da vontade profundamente verdadeira porém impotente, uma morte prematura da vitalidade e da mudança.
Foi ele também que mostrou a vida: a vida da alegria, a vida de saber que, não tendo ninguém, era possível não estar só.
Pois esse menino fez uma demanda desesperada, aparentemente tão despropositada, que poderia não ter sido atendida. Perguntou, meio assustado, quase pueril, se ninguém ali podia acompanhá-lo a um depoimento na delegacia de proteção à criança e ao adolescente:
Na delegacia não era um depoimento.
Não havia crime - pelo menos não crime recente.
Na delegacia de proteção havia vingança e violência institucional. O que haveria, aliás, era "pau". Não o houve porque ele estava acompanhado.
A moça de crachá, sua acompanhante, pequena e ingênua, esperava a hora dele depor e sequer sentiu o adensamento progressivo dos humores diante da impossibilidade da violência física que sua presença produzia.
O menino lhe sussurrava aos ouvidos: "se a senhora não estivesse aqui, eles iam me pegar... aquele agente ali não gosta de mim e tinha prometido que ia me pegar pra me bater..."
Querendo ainda acreditar na motivação institucional daquele chamado, os dois esperavam quase pacientemente - ela mais, ele menos. O delegado (ou era o agente), menos ainda.
Esta figura de autoridade - inominável, deveras - finalmente fez seu discurso: olhou pra moça com o crachá, tão pequena e nada ameaçadora e começou a vociferar jargões daqueles vomitados na mídia: "uma menina tão bonita, cuidando de marginal", "direitos humanos deviam ser pra gente direita, não pra esse vagabundo", etc.
O menino, tão doce e carinhoso com a moça que tentava cuidar dele, quis também cuidar dela, e ameaçava explodir.
Ela pegou então na sua mão e o lembrou com um olhar do que haviam conversado, sobre o cuidado com os atos, sobre decidir como agir e sobre não reagir.
Ele respira fundo e se contém.
O agente continuava a abusar da sua autoridade.
Mais discurso de ódio e a pergunta, direcionada a ela: "como você consegue lidar com esses animais?"
O rapaz não suporta: "aqui a gente é tratado como animal e vira bicho; com elas, a gente é tratado com respeito e lá a gente vira gente".
Ela - que também tem o direito de se orgulhar - sorriu triunfante.
O agente da lei às avessas não podia suportar aquela resposta e assume seu lugar animalesco, confessando o projeto frustrado de violência.
Em toda essa história e antes de ir, ela também falou. Depois de voltar, ela ainda denunciou.
Mas isso não foi o mais importante. Dali por diante, havia finalmente alguém por ele, e isso alimentava a chama da sua esperança.
O final não é feliz, já sabemos: aquele adolescente, que não estava mais só no mundo e acreditava num futuro diferente, não conseguiu deixar sua vida no passado e foi atropelado por ela.
A moça sabe que não está ali para salvar vidas, já que estas protagonizam sua própria história.
Aquela moça, de crachá e registro profissional, chorou a morte do rapaz e precisou fazer luto.
A mulher, psicóloga, queria que tivesse sido diferente, mas aprendeu muito com o menino infrator.
Aprendeu com ele a acreditar e ensinou um pouco de volta, fazendo-o se sentir menos órfão de fé.
Apesar disso tudo, ele foi assassinado.
... mas ela ainda insiste em acreditar que esse foi um caso de sucesso.
domingo, 27 de agosto de 2017
Pelo dia do psicólogo
Sempre fui pouco afeita ao compartilhamento de homenagens, no dia dos pais, das mães, dos avós, dos namorados, e de tantas outras datas comemorativas que temos hoje. A despeito disso, sempre compreendi a importância política de se levantar um monumento tanto do que representa a dor que nunca mais queremos voltar a sentir (no caso de datas como o dia da mulher, instaurada no aniversário da dor de tantas mulheres em luta por direitos os quais hoje gozamos) quanto de instaurar uma data para lembrar daqueles que, dignos de respeito hodiernamente, devem receber as homenagens devidas em face de um dia que lhes represente a luta e a tarefa cotidiana.
Isto posto - e sendo esse um blog sobre a escuta e a leitura de mundo de uma psicóloga diante das histórias e das vidas que lhe atravessam a própria vida - achei importante marcar a data e nos parabenizar, psicólogos, pelo nosso dia.
A nossa luta, por valorização e respeito a uma profissão ainda tão controversa em entendimentos fantasiosos e preconceituosos, está muitas vezes imersa em práticas incompreendidas, dado seu poder de produzir transformações a partir da mediação da palavra que sai pela fala, pelo silêncio, pelos comportamentos e que se exala através do corpo.
Quem é psicólogo, como eu, deve ter recebido hoje dezenas de mensagens, algumas que reiteram esses sentidos dos quais muitos queremos nos livrar e outras que falam a nós e nos emocionam. Copio adiante uma destas últimas, atribuída ao psicólogo Alexandre Coimbra Amaral:
Feliz dia dos insensatos, inquietos, angustiados, criativos. Feliz dia dos silenciosos, dos choros contidos, dos olhares secos e nós na garganta. Feliz dia da palavra, do corpo expresso, da vida urgente, da infelicidade que quer arder no passado e deixar de ser presente. Feliz dia das ambivalências, das incoerências, dos encontros com nossos avessos. Feliz dia da conversa estranha que não é conversa de amigo, que é um tipo de amor e que se paga, que transforma e pode libertar. Feliz dia da família, do casal, do grupo, da comunidade, do hospital, da escola, da empresa e de qualquer lugar do mundo. Feliz dia do divã, dos olhos nos olhos, da distância ótima e do abraço necessário. Feliz dia do psicanalista, do behaviorista, do cognitivista, do sistêmico, do humanista, do psicodramatista. Feliz dia daquele que não tem linha, porque não quer se ver amarrado. Feliz dia do segredo ético, da beleza que nasce da confiança e tem na entrega o seu maior legado.
Feliz dia das pessoas que buscam ampliar as perguntas sobre suas existências, e que fazem de todos nós, psicólogos, realizados por podermos continuar existindo. Nosso ofício é uma ação política de empoderamento das vozes que se emudeceram, dos cantos das almas enrouquecidas. A felicidade que precisamos celebrar, hoje, é deste encontro poder acontecer, porque ele é um tanto da beleza existente em nossas vidas.
Aos que insistem em suas perguntas aparentemente sem sentido, meus parabéns. Aos que acolhem as dúvidas de tantos, minhas colegas e meus colegas tão queridos e admiráveis, minha reverência eterna.
Sigamos, todos, na direção da realização daquilo que ainda não pode ser nomeado, expresso, vivido. Juntos, construímos um mundo (infelizmente) (ainda) estranho, de gente diferente que tem todo o direito de existir, ser vista e aplaudida em todas as suas cores.
Feliz Dia do Psicólogo!
domingo, 11 de junho de 2017
Entre duas vidas
A angústia de precisar ser aquele
que não gostaria de ser, o medo de nunca conseguir ser aquele que sonha em se
tornar. Uma pertinência que produz identidade reiterando a miséria e o risco versus uma perspectiva de superação que
parece fazer abandonar a história e tudo o que lhe faz parte, a família, a
comunidade, que parece trair o que lhe constitui enquanto pessoa. Sim, até aqui
tudo soa muito abstrato e talvez muitos consigam recortar e conjugar esses
sentidos em suas próprias mazelas, em seus próprios conflitos, mas eu falo aqui
especificamente de algumas vidas, geralmente negras e pobres, comumente
periféricas e certamente marginais.
Nasceu na periferia de uma urbe qualquer,
cresceu meio só, meio solto, meio criado pelo mundo, pela rua. O pai policial,
um filho em cada canto, pensões recortadas do seu salário, ausência recorrente.
A mãe é uma qualquer (porque não tem
importância na vida do homem que a engravidou, mas também porque é assim
tratada por dar a si mesma em busca de reconhecimento de um homem qualquer). Já
os avós, eles são os personagens idealizados, talvez porque distantes temporalmente,
talvez porque distanciados geracionalmente do caos da urbanidade e da violência
que só crescem, mas especialmente por terem conseguido garantir a ele um
aspecto de segurança onde só havia instabilidade.
E ele vive preso na dualidade:
entre o ódio de todos os policiais tão truculentos e desrespeitosos e o desejo
de se tornar um, poderoso e justo; entre a
vida loka das ruas que ajudaram a criá-lo e o sonho de ser maior, vivendo outra
vida, em outra comunidade. O garoto inteligente, perspicaz, captura os intentos
institucionais: desafia e pede ajuda, acusa e faz apelos desesperados e
disfarçados de raiva, uma raiva contida que não se contém estrategicamente para
esconder a dor. Mas não se atreva a apontar sua inteligência, pois soa como uma
acusação, não arrisque mencionar que ele pode ter futuro, porque ele recebe
como uma ameaça. Ameaça de ser mais do que lhe é permitido? Ameaça talvez de
trair seu eu, tão marcado com o estigma marginal?
Usuário de crack, se declarava viciado e pedia ajuda para largar, já que as
primeiras vítimas de suas recaídas eram sempre seus avós, seus redentores. Eram
eles as primeiras vítimas dos roubos porque essa coisa de arriscar a vida e o
futuro no crime não era pra ele, mas essa vida de ir bem na escola, de ser um
prodígio, por outro lado, era muito assustadora, e era ela, a fé cheia de
cobrança que lhe depositavam que ele parecia não sustentar e que acabava jogando
ele de volta na pedra. Ele apelava por algum auxílio, mas o que pedia mesmo era
que ninguém o acusasse com aquelas
perspectivas que projetavam seus grandes sonhos pecaminosos.
Ele não conseguia sair do seu paradoxo. Vivia a
dor de reiterar seu eu periférico, viciado, e permanecia preso àquela vida; por
outro lado a esperança de acreditar que era diferente dos outros organizava suas
ideias, vez ou outra, fazia-no desafiar o destino e ir em frente, mas ia se
equilibrando na corda bamba da vida que não merecia (ou que não lhe cabia), e o
chão – a pedra – o chamava mais forte, e assim ele caía. Era por amor aos avós
que tentava sair, era por identidade à mãe e até por uma espécie de respeito
também àqueles que não poderia ir nunca tão longe. Era por uma idealização às
avessas com o pai que queria se tornar um bom policial mas mesmo sem querer, de
alguma forma ele sempre seria filho da mãe e do pai, e o neto que nunca
mereceria o amor dos avós, sempre mártires, como o são os bons heróis de
qualquer história. Ou talvez fosse ele mesmo o mártir (anti) herói.
domingo, 7 de maio de 2017
Ser menina ou ser mulher?
Fui instada a rememorar histórias
doídas, aquelas nas quais atravessa uma agonia que parece nos dizer que não há
para elas solução ou cura. Pensar sobre violências que podem ser lançadas sobre
qualquer um, mas que geralmente atingem aquelas mais vulneráveis, aquelas que
estão tão desprotegidas porque vitimadas por quem deveria garantir-lhes abrigo
e proteção. Não, não são só meninas, mas falemos aqui delas, porque são elas o
alvo preferido, são elas as que mais sofrem, quando não a violência explícita,
a violência cultural de serem responsáveis pela garantia da harmonia de todo e
qualquer conflito. Que mulheres elas se tornarão? Que mulheres somos nós que já
chegamos até aqui?
**
Devia contar com uns 7 anos,
talvez 8, não mais do que 9. As marcas da violência eram-lhe visíveis, e isso
já fazia com que ela atraísse uma atenção inadvertida, incompreensível para
ela. Apesar da dor que sentia, a violência não era sentida como tal, mas
compreendida como amor, afinal, ela era a mulher escolhida pelo pai. Por absurdo
que seja – e sentíamos uma repulsa automática pela história – cumpria-se ali
uma fantasia edípica e ela só queria convencer a todos que estava tudo bem e
que desejava voltar à companhia do seu homem, seu agressor, seu pai. A repulsa,
entretanto, trazia consigo um “quê” de encantamento, de fantástico, e diversos
profissionais – mal (in)formados – insistiam em querer ouvir sua versão. Ela
contava e recontava, como uma história de amor, como que para acelerar sua
saída dali e seu retorno ao lar, mas a cada repetição, os olhares abismados e
encolerizados davam-lhe o sinal de que talvez devesse guardar consigo aquele
conto trágico, daqueles que só quem sente pode compreender. Entre o pedido de
segredo feito pelo amado pai, a revelação ingênua como forma de libertação e
retorno nunca conquistados, e os indicativos de que quanto mais falasse, menos
conseguiria o seu intento, ela finalmente calou. Calou-se completamente e o
tanto que ela guardava naquele pequeno coração era imensurável.
“Adultecida” precocemente, logo entendeu que aquela luta era sua, e que ninguém
era capaz de falar à sua dor e à sua confusão. Tão menina e tão mulher, já
sabia preservar os outros em detrimento de si mesma, já sabia preservar a si
mesma em detrimento dos seus sentimentos, em prejuízo de sua compreensão de si
mesma e de seu lugar no mundo.
*
Aqui eram duas, irmãs, sempre
juntas, na lembrança e na insegurança do presente e do futuro. Agora a vilã do
conto era a mãe, que lhes expunha a tantos homens maus, e que era assim reconhecida
pelas filhas e por todos os que conheciam a história. Havia à época da
violência também um irmão. Este conseguiu fugir, denunciar e encontrar alguém
que o ouvisse e o acolhesse, escapando do destino de institucionalização que
coube a elas. Quando a irmã pequena insistia em esquecer da dor que sentira e
sonhava em voltar para casa, para uma mãe amorosa que não existia, era a mais
velha que lhe dizia: “já esqueceu do que ela fazia com a gente?” e se recusava
a falar daquilo de novo, a caçula já indicando estar ciente de que o retorno
não era uma saída possível. Essas duas meninas eram “o terror” da instituição:
estigmatizadas por sua hipersexualidade, eram acusadas de abusar das outras
crianças. Que nome terrível a se dar a uma compulsão à repetição que encobria
tamanho sofrimento! Certamente era uma tentativa de controlar o sentimento, uma
necessidade inexplicável de sentir o toque e o prazer sexual, mas dessa vez na
sua própria hora, com aqueles a quem amavam e compartilhavam uma vida. Será que
eu sirvo pra mais alguma coisa? Parecia ser essa a pergunta que lhes guiava
quando, querendo conquistar qualquer coisa, escolhiam uma figura masculina e
tentavam consegui-lo por uma espécie de sedução que mais constrangia a eles e
reforçava nelas seu (não) lugar.
*
Por fim, mais três irmãs. E aqui
o malfeitor volta a ser o pai, confundindo violência com carinho. Abusivo com
elas e com a mãe delas, parecia tomá-las todas como objetos que possuía e com
elas faria o que bem entendesse. Perspicaz, no entanto, fazia o personagem do
pai, do marido e do vizinho perfeito: estava acima de qualquer suspeita em um
mundo em que a palavra da mulher e da criança carece ainda de legitimidade. A
esposa denunciava suas violências como podia e para quem a ouvisse e lhe
passasse um pouquinho de confiança. As crianças também o denunciavam com seus
terrores noturnos e suas masturbações compulsivas que lhes afastavam das
brincadeiras coletivas. Sendo três e muito novas, cada uma respondia ao seu
modo. A mais velha das três, tinha lá para os seus 7 anos, rejeitava receber o
pai nas visitas, colando na mãe quando ela ia junto, chorando e se recusando a
sair quando não fosse esse o caso. A do meio, com 5 ou 6 anos, ganhou logo a
fama de espevitada (e mais uma vez o estigma fica marcado) pois não podia ver
aquele homem que logo pulava no seu colo. A mais nova, devia contar com três
anos, até então não falava e de tanto que se isolava, não era jamais vista a brincar
com os outros. As duas mais velhas, aliás, apesar de já falarem, desenvolveram
uma gagueira, sinal do silêncio imposto sob ameaça. Com a conversação
prejudicada, encontravam alternativas para comunicar a violência, mas quem as
acolheria, se as provas não eram “claras e contundentes”? E de que outras provas
precisávamos, afinal?
**
Em todas elas, uma história que
não se pode revelar, um silêncio e uma angústia a se (e de se) guardar, um
tempo que não sai nunca do lugar, tempo estagnado, preso entre uma infância não
vivida e uma vida adulta iniciada cedo e que, no entanto, não pode ser começada
nunca. Meninas e mulheres, em que ponto de sua história será possível se
libertar?
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